Estou em um período de doutorado sanduíche em Lisboa e tenho aproveitado para desbravar o universo da inovação, tecnologia e empreendedorismo por aqui. Faço isso por duas razões: atuo nesse segmento no Brasil (na comunicação e marketing do Tecnopuc – Parque Científico e Tecnológico da PUCRS) e as lideranças desses ambientes formam o público que estou entrevistando para a minha pesquisa.
Para além de juntar o útil ao agradável, busco compreender o que a inovação tem a compartilhar sobre a comunicação com o diferente, uma vez que é exatamente na diferença que ela encontra terreno fértil.
Antes de vir, comecei a estudar esse ecossistema e algo me inquietava: por que um país tão pequeno, de economia historicamente questionada e cuja língua-mãe é o português, possui um ecossistema tão dinâmico? Afinal, o país sedia um dos eventos mundiais de tecnologia mais atraentes (lembro de quando vim pela primeira vez, em novembro de 2017, e só se falava em Web Summit).
Bem, já se passaram alguns meses e, depois de participar de muitos encontros — entre eles o lançamento do Programa de Incubação da ApexBrasil e do SEBRAE, que marcou o início da internacionalização de dez startups brasileiras —, além de meetups, seminários e happy hours, começo a ter uma percepção que compartilho aqui:
1. A porta de entrada para a Europa: O destino é Portugal, mas atua claramente como uma rampa de lançamento para o mercado europeu, pois o país isolado não oferece escala para grandes negócios. Cientes disso, o inglês é o idioma principal em qualquer evento ou aula de inovação. Até hoje, não assisti a um pitch em português.
2. Excelência acadêmica e conexão com o mercado: As universidades portuguesas são referência europeia em empreendedorismo. O corpo docente é altamente qualificado — muitos com bagagem global — e a interação com o mercado é fortíssima, potencializada por programas Alumni.
3. Guerra global por talentos e qualidade de vida: A União Europeia tem seus desafios de regulamentação, mas oferece seus benefícios na transição de talentos. Na Universidade Católica Portuguesa, o português é um dos idiomas que menos ouço; alemão, francês e inglês dominam. Se existe evasão de talentos locais em busca de salários maiores na UE, há também uma imigração expressiva de profissionais globais que escolhem morar aqui. Por quê? Pela qualidade de vida.
Dia desses, ouvi duas pessoas de países diferentes justificando a escolha por Portugal pelo seu lifestyle, clima agradável e facilidade de acesso. Como o país sabe que não pode competir puramente com salários atrativos de outras potências europeias, buscou focar no bem-estar. Em tempos onde o olhar humano está sendo resgatado num mundo artificial, a humanização das relações de trabalho tornou-se estratégia de retenção.
4. Inovação de Palco vs. Inovação de Fato: O mais interessante que percebi foi a maturidade do mercado. Os eventos não são momentos para “jogar confete”, mas espaços para discussões práticas e intensas sobre como melhorar o cenário. Muita gente por aqui já percebeu a diferença entre a “inovação de palco” e a “inovação de fato”. Inovar de fato não é apenas adotar a última tecnologia; é ter a coragem de mudar processos, melhorar a comunicação e humanizar a gestão.
Pelo que percebo, Portugal não quer apenas estar no hype de um evento, mas busca oferecer um mercado genuinamente sustentável para o desenvolvimento de novos negócios.

