Entrar em 2026 trouxe uma sensação quase unânime para quem vive conectado: exaustão. Depois de anos sendo impactadas por uma enxurrada diária de publicações de marcas disputando atenção, as pessoas consomem mais conteúdo do que nunca e se conectam cada vez menos. Esse cenário está provocando uma mudança estrutural na forma como marcas, criadores e agências pensam a geração de conteúdo.
Segundo a líder de conteúdo da Gampi Casa Criativa, Juliana Bonalume, o momento exige uma virada de chave. “Vivemos um paradoxo: estamos o tempo todo consumindo, mas lembramos de quase nada. Seguimos milhares de perfis, mas nos conectamos com pouquíssimos. O público cansou de conteúdo genérico e performático”.
Para ela, as tendências que se consolidam em 2026 apontam para uma retomada do aspecto humano das redes sociais, com mais intenção, profundidade e verdade. “As pessoas querem sentir que existe alguém real do outro lado da tela. E isso muda completamente o papel estratégico do conteúdo dentro das agências”.
Autenticidade como novo algoritmo
Em um contexto em que a inteligência artificial é capaz de criar imagens, textos e vídeos tecnicamente perfeitos, a perfeição perdeu valor. “A audiência desenvolveu um radar muito apurado para identificar o que é artificial demais”, diz Juliana. “Não existe rejeição à tecnologia, mais de 70% dos profissionais já usam IA no dia a dia, mas existe uma recusa clara à substituição da alma humana pela máquina”.
Conteúdos espontâneos, conversas sem roteiro, bastidores reais e pontos de vista de quem vive a marca no dia a dia ganham mais credibilidade do que campanhas institucionais altamente produzidas. “Hoje, o público confia mais no olhar do estagiário, do atendente ou da equipe operacional do que em um discurso corporativo engessado. As pessoas seguem pessoas, não logotipos”, reforça.
Marcas que viram programas, não anúncios
Outra tendência forte para 2026 é a transformação dos perfis de marcas em verdadeiros “programas de conteúdo”. A lógica de posts isolados e temas desconectados perde espaço para estratégias seriadas, com quadros fixos, episódios recorrentes e narrativas contínuas.
“Quando uma marca pensa seu conteúdo como uma grade de TV, ela cria hábito, expectativa e recorrência”, explica Juliana. “Os algoritmos favorecem conteúdos episódicos, mas o principal ganho está na construção de vínculo”.
Um exemplo citado pela especialista é o da cafeteria americana Little Joy Coffee, que aumentou seu faturamento em 40% ao transformar o desenvolvimento do cardápio em uma série de testes com o público. “Eles deram um rosto para a marca e criaram uma história que as pessoas queriam acompanhar. Consistência e familiaridade são fundamentais para o crescimento sustentável”, analisa.
Microcomunidades e a nova lógica da busca
O crescimento a qualquer custo também perde força. Em 2026, a relevância passa a ser medida pela profundidade da relação, não pelo tamanho da audiência. “Ter mil pessoas engajadas em um canal direto, como WhatsApp ou DM, vale muito mais do que cem mil seguidores passivos”, afirma Juliana.
Esse movimento vem acompanhado de uma mudança no comportamento de busca, especialmente entre a Geração Z. Quase metade desse público já ignora mecanismos tradicionais como o Google e inicia suas pesquisas diretamente no TikTok ou no Instagram. “Eles não procuram só informação, procuram experiências reais, opiniões honestas e vivências humanas”, explica.
Nesse cenário, o chamado Social SEO ganha força: conteúdos que respondem perguntas reais, com linguagem natural e foco em nichos específicos. “Paramos de tentar falar com todo mundo para nos tornarmos indispensáveis para as pessoas certas”, resume.
Conteúdo como ativo estratégico
Para Juliana Bonalume, todos esses movimentos reforçam a valorização da área de conteúdo dentro das agências. “O consumidor está exausto de gatilhos artificiais, escassez forçada e conteúdos feitos apenas para preencher calendário”, afirma. “Se a estratégia parece um anúncio, ela já perdeu”.
O caminho, segundo a especialista, está no equilíbrio entre tecnologia e humanidade. “A IA deve ser usada para ganhar escala e eficiência, mas a direção criativa, o tom de voz e o ‘olho no olho’ precisam continuar sendo humanos. No fim das contas, ser genuinamente humano é a única vantagem competitiva que nenhum algoritmo consegue copiar”.

