Cuidar das infâncias é fortalecer comunidades inteiras. Foi a partir dessa compreensão que, na última semana, o Instituto ELAborar participou do evento de encerramento do Curso Interações Positivas nas Práticas de Cuidado desde a Primeira Infância, realizado no auditório da Unimed Federação RS. Mais do que uma atividade acadêmica, o encontro marcou uma etapa importante de um trabalho que vem sendo desenvolvido diretamente em território, na Ocupação RedeMix, em São Leopoldo.
O Instituto ELAborar é uma organização da sociedade civil que tem como missão promover o cuidado e a saúde integral para e com mulheres. Partimos do entendimento de que trabalhar para e com mulheres é, necessariamente, trabalhar com crianças, com famílias e com toda uma rede de cuidado, produção e reprodução da vida. Essa perspectiva orienta nossas ações e fundamenta o modo como atuamos em contextos de vulnerabilidade social.
Durante o evento, apresentamos parte da pesquisa-ação realizada junto a mulheres e crianças da comunidade, tendo como principal entrega um Diagnóstico Comunicológico sobre as interações desde a primeira infância. O estudo evidencia a fragilização dos vínculos familiares e comunitários, a carência de espaços adequados ao brincar e a invisibilidade de múltiplas necessidades básicas, inclusive das crianças.
Esse diagnóstico é fruto de meses de presença contínua, escuta qualificada e atuação integrada, por meio do Projeto ELAbora Mulheres e Crianças. A partir de parcerias institucionais com a Unisinos e o Serviço Jesuíta de Migrantes e Refugiados – SJMR-Brasil, conhecemos a comunidade e o trabalho de base realizado há cinco anos pela liderança comunitária Andrea Ramos dos Santos, responsável pelo Projeto K’Anjos, que atua como cozinha comunitária e espaço de convivência e fortalecimento de vínculos (ESFV) para crianças.
A Ocupação RedeMix abriga cerca de 200 famílias, brasileiras e venezuelanas, em situação de vulnerabilidade social. A comunidade também foi diretamente impactada pela enchente de 2024, o que agravou as condições de vida no território.
Entre agosto e dezembro, o Projeto ELAbora Mulheres e Crianças realizou rodas de conversa, questionários, ações de cuidado e acolhimento, atividades lúdicas e encaminhamentos à rede intersetorial de saúde. As ações envolveram uma equipe multiprofissional, composta por profissionais e acadêmicos das áreas de Comunicação, Enfermagem, Pedagogia, Psicologia e Serviço Social. Atualmente, o Instituto encontra-se na fase de compilação e análise dos dados coletados, que irão compor o Relatório do Projeto ELAbora Mulheres e Crianças. Para a realização do projeto, o Instituto firmou termo de cooperação com a Secretaria Municipal de Saúde.
Esse relatório será o 1º Diagnóstico Comunitário da Ocupação RedeMix, reunindo indicadores quantitativos e qualitativos sobre a realidade de um território que (re)existe há cerca de 10 anos sem levantamentos sistematizados prévios e, até então, sem um cadastro formal das famílias residentes.
Ao tornar visível essa experiência, reafirmamos que investir nas interações desde a primeira infância é uma escolha ética e política por justiça social. É reconhecer que o cuidado em rede transforma realidades e sustenta a vida em comunidade.

