A Páscoa de 2026 acontece sob um novo contexto de consumo: mesmo com a recente queda nas cotações internacionais de cacau e açúcar, os preços dos ovos de chocolate seguem pressionados no varejo, com altas que chegam a mais de 20% em relação ao ano passado. Esse descompasso entre o custo das commodities e o valor final nas prateleiras reflete uma cadeia mais complexa, que envolve logística, estoques, câmbio e estratégias comerciais, e impacta diretamente o comportamento do consumidor, cada vez mais sensível a preço e menos fiel a marcas, e exige também uma maior preparação das empresas.
De acordo com o Benchmark de Comércio Unificado (UCB) para a América Latina 2026, desenvolvido pela Manhattan Associates em parceria com a Incisiv, 37% das capacidades que diferenciavam varejistas em 2024 já se tornaram básicas em 2026, enquanto 65% dos consumidores da região esperam experiências de compra mais rápidas e com menos fricção.
Na prática, isso eleva o nível de exigência justamente em períodos de pico, como a Páscoa, e impacta toda a jornada de consumo, da aquisição e conversão nos canais digitais aos desafios operacionais dentro das lojas físicas, como segurança e prevenção de perdas.
Datas sazonais expõem a maturidade operacional do varejo
Na avaliação do Gerente Regional da Manhattan Associates, Stefan Furtado, a data evidencia o nível de preparo das operações varejistas. “O consumidor está mais exigente, híbrido e menos previsível, o que pressiona as empresas a integrarem canais, estoques e experiências de ponta a ponta. Datas como a Páscoa deixam claro quais varejistas já operam com uma lógica de comércio unificado e quais ainda enfrentam rupturas na jornada”.
Segundo o executivo, embora a maturidade média do varejo latino-americano tenha avançado de 31% para 48% em dois anos, o principal desafio agora está na execução consistente. “Não se trata mais de ter determinadas capacidades, mas de conseguir operá-las de forma integrada, com visibilidade e em tempo real, especialmente em períodos de pico. É aí que entram temas como orquestração de pedidos, uso das lojas como hubs logísticos e maior inteligência na gestão de estoque”, completa.
Segurança e prevenção de perdas em períodos de pico
Esse desafio de execução em períodos de pico não se limita à logística e ao atendimento. Com produtos mais caros e maior fluxo de consumidores nas lojas, a Páscoa também amplia a exposição a perdas no varejo físico, adicionando uma nova camada de complexidade à operação.
“Itens mais caros se tornam naturalmente mais visados para furtos e outras ocorrências, especialmente em datas que concentram grande movimentação e produtos de maior valor agregado, o que exige um reforço nas estratégias de prevenção”, afirma Rodrigo Tessari, CEO da Deconve, startup catarinense especializada em prevenção de perdas no varejo físico.
Nesse cenário, o uso de tecnologias como o reconhecimento facial tem ganhado espaço como aliado das operações, utilizando inteligência artificial para apoiar o monitoramento e reduzir incidentes dentro das lojas. As soluções analisam imagens captadas por câmeras, identificam comportamentos suspeitos e ajudam a reconhecer padrões recorrentes, permitindo uma atuação mais ágil e estratégica na prevenção de perdas.
Redes sociais como canal de venda
Quando a disputa por atenção e conversão se intensifica no varejo, as redes sociais assumem papéis cada vez mais complementares, mas ainda desiguais em termos de resultado financeiro. Dados do Reportei, empresa de relatórios e dashboards de marketing e vendas, mostram que, em média, ações na Meta geraram retorno até 20 vezes maior do que no TikTok, refletindo um ecossistema mais maduro de mídia paga e estratégias de performance já consolidadas. “O TikTok é extremamente eficiente para gerar interesse e engajamento, mas a conversão ainda acontece majoritariamente na Meta, que oferece mais previsibilidade e ferramentas robustas para otimização de campanhas”, explica Renan Caixeiro, co-fundador e CMO da empresa.
Ao mesmo tempo, o avanço do TikTok Shop e o fortalecimento de conteúdos orgânicos indicam uma mudança relevante no comportamento do consumidor, que passa a descobrir produtos de forma mais espontânea e integrada ao entretenimento. Esse cenário exige uma estratégia mais sofisticada por parte das marcas, combinando canais de topo de funil com plataformas de conversão mais eficientes. Além disso, a inteligência artificial tem ganhado protagonismo na operação de marketing: outro levantamento do Reportei aponta que mais de 80% dos profissionais já utilizam IA no dia a dia, principalmente para geração de ideias, produção de conteúdo e análise de dados. “Em datas como a Páscoa, em que timing e criatividade fazem diferença, a IA se torna uma aliada importante para escalar testes, personalizar campanhas e responder mais rápido às tendências de consumo”, completa Caixeiro.
Contratações temporárias pressionam eficiência no recrutamento
O aumento da demanda no varejo durante a Páscoa também se reflete na abertura de vagas temporárias, que devem chegar a até 800 mil no Brasil, segundo a Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem). Mais do que contratar em volume, o desafio para as empresas está em dar conta da velocidade e da qualidade desses processos em um curto espaço de tempo, evitando gargalos e perdas de candidatos ao longo da jornada.
Nesse cenário, o uso de tecnologia e dados ganha protagonismo para apoiar a triagem em larga escala e tornar a tomada de decisão mais ágil. “Datas sazonais funcionam como um teste de estresse para a operação de recrutamento. Empresas que ainda tratam contratação temporária como um processo manual estão competindo em desvantagem. No entanto, é importante tratar o assunto com antecedência. Nesses casos, o que a gente observa é que as empresas que investiram em estrutura e automação antes do pico são as que conseguem contratar com velocidade sem abrir mão da qualidade”, afirma Augusto Frazão, CEO da InHire, empresa de tecnologia para recrutamento e seleção que já processou mais de 30 milhões de candidaturas desde a fundação.
E se o cliente for o governo?
Para além do varejo tradicional, datas como a Páscoa também movimentam uma cadeia paralela de consumo ligada ao setor público. Prefeituras em todo o país realizam programações sazonais que envolvem desde distribuição de alimentos e kits comemorativos até eventos culturais, atividades em escolas e ações comunitárias. E todas são dependentes de processos licitatórios.
Esse tipo de demanda abre espaço para empresas que já atuam com fornecimento padronizado, como alimentos, serviços, estrutura e apoio logístico, mas também impõe um nível de exigência operacional que tende a aumentar em períodos de maior volume. “Datas sazonais concentram contratações em janelas mais curtas, o que exige preparo prévio das empresas para operar com agilidade e dentro das regras”, afirma Alan Conti, CEO da Effecti, empresa de tecnologia para licitantes.
Segundo o executivo, o desafio não está apenas em encontrar oportunidades, mas em sustentar consistência ao longo do processo. Falhas documentais, prazos mal calculados e propostas desalinhadas continuam entre os principais fatores de desclassificação, especialmente quando há aumento simultâneo de editais. “Em momentos de pico, o risco operacional cresce. Empresas mais organizadas e com processos estruturados conseguem capturar melhor essas oportunidades”, diz.
Nesse contexto, a maturidade operacional passa a ser um diferencial competitivo também nas compras públicas. O uso de tecnologia para monitoramento de editais, gestão de documentos e padronização de propostas tende a reduzir erros e aumentar a previsibilidade: fatores decisivos em um ambiente regulado e sensível a falhas formais.

