A crescente sofisticação dos ataques digitais e a escassez de profissionais qualificados em cibersegurança têm se tornado um desafio estratégico para empresas e para a própria segurança nacional. O tema esteve no centro das discussões de um encontro realizado no dia 11, na sede da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), em Florianópolis, que reuniu representantes da indústria, especialistas em tecnologia, instituições de ensino e integrantes de órgãos ligados à área de defesa.
O debate integrou as atividades do Condefesa da FIESC e contou com apoio da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e do Observatório Nacional da Indústria, da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O objetivo foi discutir tendências tecnológicas e identificar quais competências profissionais serão necessárias para atender às demandas da cadeia industrial de defesa e segurança digital nos próximos anos.
Entre os participantes esteve Fabio Brodbeck, cofundador e CGO da OSTEC, empresa referência em cibersegurança. Segundo ele, o debate teve alto nível técnico e permitiu integrar diferentes visões sobre o futuro da segurança digital no país. “A discussão reuniu especialistas da indústria, do setor público e da academia, o que trouxe perspectivas complementares sobre o desenvolvimento da cibersegurança no Brasil e as necessidades de formação profissional para os próximos anos”.
A atividade seguiu uma metodologia de prospectiva industrial, voltada à análise de tecnologias emergentes e seus impactos no mercado de trabalho e na formação educacional. Durante o encontro, os participantes trabalharam em grupos para avaliar quatro dimensões principais:
- Tecnológica, para validar tecnologias emergentes com impacto potencial no segmento;
- Ocupacional, voltada à identificação de novos perfis profissionais demandados pela indústria;
- Educacional, com foco na criação ou adaptação de cursos voltados ao setor;
- Estratégica, dedicada à definição de iniciativas capazes de fortalecer o ecossistema industrial ligado à defesa.
Entre as tecnologias discutidas, Brodbeck destaca o avanço da computação quântica e seus impactos sobre os modelos atuais de proteção digital. “A computação quântica tem sido um dos grandes temas de debate na área de segurança porque ela transformará completamente os mecanismos atuais de criptografia. Isso exige que empresas e instituições de defesa comecem a se preparar desde já para modelos de criptografia pós-quântica”, explica.
Segundo ele, parte das pesquisas nessa área já está em desenvolvimento no Brasil, especialmente dentro de universidades e centros de pesquisa, muitas vezes em cooperação internacional.
Outro ponto central do debate foi a necessidade de formação de profissionais com perfil multidisciplinar. Para o executivo, o mercado tende a exigir cada vez mais especialistas com visão integrada da segurança digital. “Mais do que profissionais altamente especializados em um único tema, cresce a demanda por perfis híbridos, capazes de transitar por diferentes áreas da tecnologia, integrar sistemas e compreender a segurança de forma mais ampla e estratégica”, afirma.
O especialista ressalta que competências em inteligência artificial, engenharia de redes, análise de dados e segurança da informação devem se tornar cada vez mais complementares no desenvolvimento de soluções e implementações de estratégias de defesa digital.
No campo educacional, os participantes reforçaram a necessidade de ampliar a presença de conteúdos de segurança dentro de cursos como ciência da computação, engenharia de software e engenharia de dados. A recomendação é que disciplinas voltadas à proteção digital sejam abordadas tanto do ponto de vista conceitual quanto prático, incluindo temas como inteligência artificial aplicada à segurança, simulação de ataques e defesas digitais e estudos sobre criptografia avançada.
Entre os principais desafios apontados pelas empresas está também a dependência de tecnologias estrangeiras em áreas críticas da infraestrutura digital. “Quando falamos de defesa cibernética, a soberania tecnológica passa a ser um fator estratégico. Hoje ainda dependemos de tecnologias desenvolvidas no exterior, desde hardware até softwares de segurança. Em cenários de instabilidade geopolítica, isso pode se tornar uma vulnerabilidade”, observa Brodbeck.
A retenção de talentos também se tornou um obstáculo para o país. “O Brasil forma bons profissionais em tecnologia, mas muitos acabam trabalhando para empresas estrangeiras ou se mudando para outros países. Reter esse capital humano é fundamental para desenvolvermos nossas próprias soluções e fortalecer a segurança nacional”.
As discussões fazem parte da construção de um documento de prospectiva industrial voltado à cibersegurança aplicada à defesa. Este estudo será divulgado pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, com o objetivo de orientar políticas de desenvolvimento tecnológico, formação profissional e estratégias industriais voltadas ao fortalecimento da segurança digital no Brasil.


