Recentemente, o mercado global de tecnologia foi impactado por um experimento realizado por dois repórteres da CNBC, repercutindo até mesmo nos círculos de investimento e inovação. No experimento, os jornalistas demonstraram que é possível replicar funcionalidades central de plataformas consolidadas, como a monday.com, em menos de uma hora utilizando inteligência artificial, e uma ferramenta de LLM – no caso, o Claude da Anthropic.
Isso trouxe à tona um novo debate sobre o futuro do modelo de software como serviço (SaaS). A reação imediata do mercado financeiro, com a queda nas ações da empresa (25% em uma semana), reflete uma preocupação crescente no segmento. Se a barreira técnica para o desenvolvimento de software foi reduzida pela IA, o que impede que as empresas abandonem assinaturas recorrentes em favor de soluções próprias?
Embora o avanço tecnológico seja inquestionável, é necessário analisar o cenário com maturidade estratégica. Como alguém que atua na área, observo que a discussão vai além da simples criação de códigos ou interfaces. O ponto de ruptura surge com a ascensão dos agentes de IA.
Estamos saindo da era em que o software é apenas uma ferramenta para o ser humano operar e entrando na fase em que agentes realizam o trabalho de forma autônoma. Se um agente de IA consegue gerenciar fluxos, organizar prioridades e executar tarefas, a necessidade de interfaces diminui. Para as empresas que oferecem soluções focadas apenas em organização básica de dados, o risco de obsolescência pode ser real – e foi aqui que a análise de muita gente em Wall Street sobre empresas desenvolvedoras de SaaS trouxe suas ações abaixo nas últimas semanas.
Porém, o que as organizações contratam ao adotar um software líder de mercado não é apenas uma tela de gestão, e sim a segurança da informação, a conformidade com normas de privacidade e a estabilidade da infraestrutura. Um clone gerado por IA pode até resolver uma necessidade pontual, mas dificilmente oferece governança e escalabilidade necessárias para uma empresa com centenas de usuários que dependem de processos mais complexos.
Nesse cenário, as empresas de software que sobreviverão a este novo ciclo serão aquelas que deixarem de ser meros repositórios de tarefas para se tornarem as bases operacionais desses agentes. Devemos ver a IA como uma camada de execução que exigirá plataformas ainda mais robustas, confiáveis e complexas, e não uma substituta.
Isso recai sobre um outro pilar ainda não debatido: a previsibilidade em custo x benefício que o modelo SaaS traz para todos os lados, fornecedor e cliente. Convenhamos que nenhum CTO ou CIO quer tomar um susto que a invoice ou boleto de uma plataforma que contempla agentes de IA para seus times teve um aumento inesperado de um mês para o outro por causa do consumo de tokens, concordam?
O foco da discussão agora deixa de ser apenas a ferramenta e passa a ser o resultado operacional que a IA, integrada a um ecossistema seguro e previsível, pode proporcionar. Por fim, deixo a pergunta para reflexão: a sua empresa está preparada para gerenciar e lidar com agentes de IA? Pois essa será a nova realidade.

