A violência contra mulheres nem sempre começa com um grito.
Às vezes começa com uma piada.
Às vezes com um meme.
E, no ambiente digital, às vezes começa com algo que parece inofensivo: um emoji.
Todos os dias, no Brasil, mulheres sofrem algum tipo de violência.
Algumas dessas histórias chegam às manchetes. Muitas outras permanecem invisíveis. Ainda assim, os números ajudam a revelar a gravidade do problema. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registra, em média, quatro feminicídios por dia. São mulheres assassinadas simplesmente por serem mulheres.
Por trás desses dados existem histórias interrompidas, famílias devastadas e uma pergunta que insiste em permanecer: como chegamos até aqui?
A violência contra mulheres não surge de forma repentina. Ela é construída em camadas.
Está nas estruturas sociais, nas desigualdades historicamente naturalizadas, nas narrativas culturais que banalizam o desrespeito e nas microagressões cotidianas que muitas vezes passam despercebidas.
E, cada vez mais, também se manifesta no ambiente digital.
A internet ampliou exponencialmente nossas formas de comunicação, aproximou pessoas e criou novas linguagens. Mas também abriu espaços onde discursos misóginos encontram terreno fértil para se reorganizar e se sofisticar.
Em comunidades online associadas à chamada cultura incel, grupos que se estruturam a partir de ressentimento e hostilidade direcionados às mulheres, surgem códigos, símbolos e linguagens próprias.
Para quem observa de fora, muitos desses elementos parecem apenas parte da estética informal da internet.
Mas, dentro desses ambientes, eles podem carregar significados associados à ridicularização, à intimidação e ao desprezo sistemático pelas mulheres.
A misoginia contemporânea raramente se apresenta de forma explícita. Muitas vezes ela se reorganiza em códigos, ironias e símbolos compartilhados em comunidades digitais. Linguagens que parecem banais para quem está fora desses espaços, mas que funcionam como marcadores de pertencimento e hostilidade para quem participa deles.
A cultura pop recente tem revelado esse fenômeno com inquietante precisão. Na série Adolescence, por exemplo, acompanhamos como jovens podem ser gradualmente expostos a comunidades digitais que normalizam discursos de ressentimento e misoginia, muitas vezes por meio de códigos aparentemente banais da cultura online.
Esse tipo de narrativa ficcional ecoa um fenômeno muito real.
Foi justamente a partir dessa reflexão que nasceu a campanha Além do Emoji, criada pela Agência Bistrô para o mês das mulheres.
A ideia surgiu a partir de uma experiência vivida pela VP Institucional e de ESG da agência, Fernanda Aldabe. Durante uma conversa online, ao dizer “não” para um homem, ela recebeu como resposta uma sequência de emojis de urso.
À primeira vista, aquilo poderia parecer apenas uma reação curiosa ou infantil.
Mas a situação causou estranhamento.
Ao pesquisar depois, Fernanda descobriu que aquele símbolo circulava em determinados espaços digitais como parte de códigos utilizados em comunidades misóginas.
Aquilo levantou uma pergunta inevitável.
Quantas outras linguagens de violência estão circulando na internet sem que a maioria das pessoas perceba?
Foi a partir dessa inquietação que nasceu Além do Emoji.
A campanha busca lançar luz sobre essas formas contemporâneas de agressão simbólica que se disseminam no ambiente digital, muitas vezes ocultas em códigos, memes e símbolos aparentemente inofensivos.
Porque compreender essas linguagens também é uma forma de enfrentamento.
Mas a reflexão não pode se limitar à denúncia.
Se desejamos alterar padrões culturais profundamente arraigados, precisamos falar sobre prevenção.
E é justamente nesse ponto que emerge uma das iniciativas mais relevantes desse projeto.
Como parte da campanha, a Bistrô convidou Natália Mansan, doutoranda e mestra em Educação, especialista em gestão educacional e pedagoga, para desenvolver um livro voltado à educação infantil e juvenil.
A obra foi concebida como um instrumento pedagógico para ajudar educadores a conversar com crianças e adolescentes sobre respeito, convivência no ambiente digital e identificação de comportamentos violentos online.
Alguns exemplares impressos serão distribuídos a coordenadores pedagógicos de escolas de Porto Alegre. Ao mesmo tempo, o e-book também está disponível gratuitamente no site da campanha, permitindo que essa mensagem alcance ainda mais pessoas.
A proposta é simples, mas estrutural. Contribuir para a formação de uma geração mais consciente sobre como se relacionar, tanto no mundo físico quanto no digital.
Porque enfrentar a violência contra mulheres não significa apenas reagir quando ela acontece.
Significa também educar para que ela não aconteça.
Eu atuo na Bistrô como Head de Cultura e estive à frente da gestão desse projeto. Ao longo desse processo, uma pergunta nos acompanhou de forma recorrente.
O que cada um de nós está fazendo, de forma concreta, para alterar os alarmantes índices de violência contra mulheres no Brasil?
Empresas ocupam hoje um papel incontornável na construção cultural. Elas produzem narrativas, influenciam comportamentos e têm a capacidade de amplificar debates urgentes.
A campanha Além do Emoji nasce como uma tentativa de provocar essa reflexão.
Porque nem toda violência começa com um grito.
Às vezes começa com uma palavra.
Às vezes com uma piada.
Às vezes com um símbolo aparentemente inocente.
E é justamente por isso que precisamos aprender a olhar além deles.
No mês das mulheres, fica uma pergunta inevitável.
O que a sua empresa tem feito, de forma concreta, para contribuir para a redução da violência contra mulheres?
Conheça a campanha e acesse o e-book em

