A digitalização da saúde no Brasil deu saltos importantes nas últimas duas décadas, mas ainda avança em ritmo desigual entre regiões, instituições e especialidades. Segundo dados do Cetic.br, 92% dos estabelecimentos de saúde brasileiros já utilizam registros eletrônicos, mas apenas 37% operam totalmente sem papel e apenas 23% dos profissionais receberam treinamento digital no último ano.
Para Iomani Engelmann, fundador e CO-CEO da Pixeon, empresa que atende mais de três mil instituições e impacta 50 milhões de pacientes por ano, a transformação digital passa necessariamente pela capacidade de integrar dados clínicos, reduzir redundâncias e criar modelos mais eficientes de cuidado. “Com o envelhecimento acelerado do Brasil, isso se torna ainda mais crítico. Sem dados estruturados, perdemos a chance de tomar decisões melhores a partir de informações já disponíveis”.
A história da Pixeon nasce justamente desse diagnóstico. Quando ainda era estudante da Universidade Federal de Santa Catarina, Engelmann acompanhou de perto a internação e o falecimento do avô, experiência que o levou a enxergar, de dentro dos hospitais, as limitações tecnológicas que comprometiam o cuidado. “Naquela época, o Brasil não tinha software para retirar exames direto dos equipamentos médicos e disponibilizá-los aos médicos. Dependíamos totalmente dos filmes radiológicos, caros e sujeitos a falhas logísticas”, recorda.
O primeiro protótipo surgiu em seu próprio apartamento, em 2003. Um ano depois, a empresa já tinha seu primeiro cliente e uma missão clara: substituir filmes por imagens digitais e permitir que radiologistas laudassem de qualquer lugar. Em 2007, a Pixeon tornou-se pioneira ao oferecer laudos remotos, algo considerado disruptivo na época. “Teve caso de médicos no Rio de Janeiro acessando exames de Santa Catarina em tempo real. Era impensável até então”, conta.
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Da inovação à consolidação do portfólio
A inovação chamou atenção da Intel. Em 2011, a gigante global realizou seu primeiro investimento em saúde no Brasil ao se tornar sócia da Pixeon. O aporte impulsionou aquisições estratégicas, consolidando a visão de plataforma única para toda a cadeia de saúde. Integrar sistemas tão distintos, no entanto, foi um desafio. “Quando tocamos um hospital, lidamos com tudo: internação, hotelaria, materiais, medicamentos, centro cirúrgico, UTI, prontuário, faturamento, comunicação com operadoras. Para o paciente, isso é invisível, até que algo dê errado”, destaca Engelmann.
Segundo o fundador e CO-CEO da Pixeon, a busca por uma solução completa levou à aquisição de um sistema baiano que se tornaria o Pixeon Smart, plataforma hospitalar que hoje é um dos motores de crescimento da empresa. “Vimos que o Brasil tinha cerca de 7.500 hospitais, mas apenas duas empresas lideravam esse mercado. Havia espaço para uma terceira via, integrada, flexível e construída com visão clínica”.
O Pixeon Smart, originalmente criado por um médico cardiologista, permitiu aprofundar essa lógica. O prontuário passou a ser configurado por especialidade, dando a fisioterapeutas, nutricionistas, cardiologistas e outros profissionais acesso apenas às informações relevantes para sua atuação, sem perder integração entre equipes.
Interiorização e telemedicina
Além da digitalização, a busca por segurança, qualidade de vida e custos menores tem levado famílias para cidades médias e pequenas, um fenômeno que pressiona a infraestrutura de saúde fora dos grandes centros. Segundo Engelmann, esse movimento exige redes mais integradas e o uso intensivo de telemedicina. “Hoje, é comum que UTIs pequenas no interior tenham retaguarda de especialistas de grandes capitais. Sem tecnologia, seria financeiramente impossível manter um neuro, um cardiologista e um ortopedista 24h em hospitais de cidades pequenas”.
Ele destaca um dado alarmante: entre 25% e 35% dos atendimentos de urgência poderiam ser resolvidos via teleatendimento, sem necessidade de deslocamento para prontos-socorros superlotados. “Além do custo, há o risco: o paciente às vezes entra no hospital para resolver uma unha encravada e sai com uma infecção”.
Interoperabilidade
A Pixeon acompanha de perto as discussões no Congresso Nacional sobre interoperabilidade. Para Engelmann, o país precisa de um padrão nacional de troca de informações clínicas, algo similar ao que o Open Finance fez no sistema financeiro. “Sem interoperabilidade, o Brasil perde eficiência, aumenta custos e deixa o paciente refém do prestador. O dado é do indivíduo. Ele precisa ter liberdade de levá-lo para onde quiser”.
O CO-CEO da Pixeon entende que a interoperabilidade também poderia aliviar a inflação médica, que há mais de uma década cresce duas a três vezes acima da inflação geral. “Se exames desnecessários fossem eliminados e dados fossem compartilhados em tempo real, a pressão sobre planos e hospitais diminuiria significativamente”.
Para o futuro, Engelmann prevê uma mudança no modelo de remuneração aplicado na área da saúde. “O sistema brasileiro ainda opera majoritariamente em fee-for-service, no qual se paga por produção (quantidade de exames, procedimentos e cirurgias) e não por qualidade. A saúde vai migrar para modelos que remuneram qualidade e desfechos, não volume. A tecnologia é o que torna isso possível”.
Para ele, eficiência não é apenas um ganho operacional, é condição de sobrevivência para o setor. “Com custos crescentes, mudanças demográficas e pressão por qualidade, só existe um caminho: digitalizar, integrar e colocar o paciente no centro da jornada. Não existe futuro sustentável sem isso”, finaliza.
Saiba mais
Fundada em 2003, em Florianópolis/SC, a Pixeon é uma das principais empresas brasileiras de tecnologia para a saúde. Com mais de 3.000 clientes, a companhia integra o grupo Vela LatAm, uma das divisões da canadense Vela Software. A Pixeon impacta mais de 50 milhões de pacientes por ano com soluções digitais de ponta a ponta para clínicas, hospitais e centros de diagnóstico. Em seu portfólio estão plataformas como o premiado sistema PACS Aurora, eleito quatro vezes o melhor da América Latina pelo KLAS Research. Além de presença consolidada em todo o Brasil, a Pixeon já atende dezenas de instituições na Argentina, Uruguai e Peru, ampliando sua atuação internacional e reforçando sua posição como referência em tecnologia e eficiência para a saúde na América Latina.


